Capacidade produtiva: a conta que evita prometer prazo impossível

Produção e produtividade5 min de leitura

O comercial pergunta se dá para entregar 3.000 peças até o fim do mês. A resposta certa não é intuição de quem conhece a fábrica — é uma conta de uma linha que quase ninguém faz antes de prometer. Quando a conta não é feita, o atraso é decidido no momento do aceite; só a descoberta fica para depois.

A conta

capacidade mensal = horas produtivas do gargalo × peças por hora no gargalo

Só o gargalo entra na conta. Os outros postos têm capacidade sobrando por definição — se não tivessem, seriam eles o gargalo.

Exemplo

Numa fábrica de sacolas, o gargalo é a costura: 3 costureiras, jornada de 176 horas produtivas por mês cada, 12 minutos de costura por peça.

  • Horas de gargalo no mês: 3 × 176 = 528 horas
  • Ritmo: 60 ÷ 12 = 5 peças/hora por costureira
  • Capacidade: 528 × 5 = 2.640 peças/mês

As 3.000 peças do comercial não cabem. E o mais útil da conta é que ela mostra quanto falta: 360 peças = 72 horas de costura. As opções ficam concretas — hora extra (72 h), terceirizar parte da costura, ou negociar 15 dias a mais. Sem a conta, a conversa é "vamos dar um jeito"; com ela, é uma escolha com preço.

Horas produtivas não são horas contratuais

O erro mais comum é usar as horas do contrato. Das horas contratadas, saem paradas, troca de produto, limpeza, reunião, banheiro, treinamento. Usar 220 horas contratuais onde existem 176 produtivas infla a capacidade em 25% — e esse otimismo vira atraso com data marcada.

O número honesto vem do apontamento: a soma de horas apontadas no centro num mês típico É a capacidade produtiva real dele. Não precisa estimar o que já se mede.

Capacidade compromissada: o segundo número

Capacidade total sem olhar a carteira é meia resposta. O que decide a promessa é a capacidade livre: total menos o que as ordens já aceitas vão consumir no período. Uma fábrica de 2.640 peças/mês com 2.200 já comprometidas tem 440 para vender — prometer mais que isso é escolher qual cliente vai atrasar.

É por isso que ordem de produção precisa nascer do pedido: sem esse vínculo, ninguém sabe quanto da capacidade já está vendida, e toda promessa é feita no escuro.

Produto misto: converta para tempo de gargalo

Quando a fábrica faz vários produtos, a capacidade não é "peças por mês" — cada produto consome o gargalo de forma diferente. A moeda comum é o tempo: uma sacola simples usa 8 minutos de costura, a premium usa 20. As 528 horas do gargalo compram qualquer combinação que caiba nelas, e o mix deixa de ser opinião para virar alocação de um recurso finito.

O que levar disso

  • Capacidade = horas produtivas do gargalo × ritmo no gargalo. Uma linha.
  • Horas produtivas vêm do apontamento, não do contrato — a diferença passa de 20%.
  • Antes de prometer, subtraia o que a carteira já comprometeu.

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