Terceirizar ou fazer dentro? A conta muda conforme a fábrica está cheia ou vazia
A proposta chega: a facção costura por R$ 9,00 a peça que custa R$ 7,00 para costurar dentro. Parece encerrado: R$ 2,00 mais caro, obrigado. Mas essa comparação só é a conta certa numa condição específica, e quando a condição muda, a resposta inverte.
Cenário 1: fábrica com capacidade sobrando
Com gente e máquina ociosas, a comparação é custo variável interno contra preço do terceiro. Atenção ao "variável": o custo interno de R$ 7,00 costuma embutir rateio de fixos (aluguel, encarregado) que não desaparecem se a etapa sair. Se o variável de verdade (material de consumo + o que de fato deixa de ser gasto) é R$ 4,00, terceirizar a R$ 9,00 não economiza R$ −2,00: desperdiça R$ 5,00 por peça e ainda deixa a equipe parada. Com fábrica vazia, fazer dentro quase sempre ganha.
Cenário 2: gargalo cheio
Agora a costura é o gargalo e está lotada: há mais pedido do que capacidade. A pergunta muda: não é "o que custa menos por peça", é "o que faz a fábrica produzir mais".
Os números do exemplo:
- terceirizar custa R$ 2,00 a mais por peça;
- cada peça terceirizada libera 3 minutos de gargalo, e 20 peças liberam 1 hora;
- custo de liberar essa hora: 20 × 2 = R$ 40,00;
- a hora liberada produz outras peças, gerando R$ 60,00 de margem de contribuição (20 peças/hora × R$ 3,00 de margem).
Pagar R$ 40 para ganhar R$ 60: vale terceirizar, mesmo sendo "mais caro" por peça. A peça terceirizada não compete com a peça interna: compete com a peça que não existiria sem a hora liberada. (Se a margem por hora de gargalo fosse R$ 30, a mesma conta mandaria manter dentro. Não é regra de bolso; é conta.)
O que a planilha não mostra
- Qualidade e retrabalho: peça do terceiro que volta consome inspeção e prazo. Entre no acordo com critério de aceitação escrito e inspeção de recebimento.
- Lead time e variabilidade: o prazo do terceiro entra no seu. Um fornecedor barato e imprevisível cobra a diferença em OTIF.
- Dependência: terceirizar 100% de uma etapa crítica entrega o seu prazo ao calendário de outra empresa. Manter capacidade interna mínima é seguro, não ineficiência.
- Rastreabilidade: o lote não pode virar caixa-preta ao sair: o material enviado e o recebido continuam precisando de vínculo com a ordem.
A decisão é reversível: trate-a assim
Comprar ou produzir não é dogma, é resposta a um estado da fábrica: cheia ou vazia, gargalo aqui ou ali. O estado muda com a estação e com a carteira. Refaça a conta quando o cenário virar: quem terceirizou na alta e esqueceu de voltar na baixa paga terceiro com equipe ociosa dentro de casa.
O que levar disso
- Fábrica vazia: variável interno × preço do terceiro, sem rateio de fixo na conta.
- Gargalo cheio: custo da hora liberada × margem que a hora gera. A resposta pode inverter.
- Qualidade, prazo e dependência entram no contrato, não na esperança.
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