Quilo, metro e peça: a conversão que faz o estoque mentir
A nota do fornecedor vem em quilos. A ficha técnica pede metros. O apontamento da produção registra peças. Enquanto essas três unidades convivem sem uma regra escrita, o saldo do sistema é uma opinião, e o inventário do fim do ano vira uma negociação sobre quem lançou errado.
A conta que resolve a maior parte dos casos
Material plano com gramatura conhecida converte com uma multiplicação. Um tecido de 160 g/m² com 1,60 m de largura:
peso por metro linear = gramatura (g/m²) × largura (m) ÷ 1.000
- 1 metro linear pesa 160 × 1,60 ÷ 1.000 = 0,256 kg;
- 1 kg rende 1 ÷ 0,256 = 3,906 m;
- um rolo de 25 kg tem 97,66 m;
- com consumo de 0,42 m por peça, esse rolo dá para 232 peças, e sobram cerca de 20 centímetros.
Esse último número é o que interessa ao chão de fábrica. Saber que o rolo rende 232 peças muda o corte, o pedido de compra e a promessa de prazo, e nenhuma dessas decisões cabe numa conversa de memória.
O erro clássico, e como ele aparece
A entrada é lançada em quilos, o consumo é apontado em metros e o sistema soma as duas coisas na mesma coluna. O saldo então cresce para sempre, porque entra 25 e sai 0,42. O sintoma aparece antes do inventário: o comprador olha o relatório, vê estoque de sobra e não compra; a produção para com prateleira vazia. Quando o número do sistema perde credibilidade, todo mundo volta a olhar a prateleira, e aí o sistema virou digitação.
A regra que evita tudo isso
- Uma unidade de estoque por item. Escolha aquela em que o material é efetivamente controlado e contado. Para bobina, costuma ser metro; para insumo a granel, quilo ou litro.
- Fator de conversão no cadastro do item. A compra pode ser em quilo e a ficha em metro, desde que o sistema converta sozinho na entrada. Conversão feita à mão por quem digita é erro esperando a hora.
- Conversão não arredonda no meio. Guarde casas decimais suficientes no fator. Arredondar 3,906 para 3,9 introduz 0,16% de erro, o que em cem entradas vira divergência real de inventário.
Gramatura tem tolerância, e ela importa
Tecido não sai da fábrica com a gramatura exata da ficha. Uma tolerância de 5% em 160 g/m² significa material entre 152 e 168 g/m², e o rendimento por quilo varia junto: entre 3,72 m e 4,11 m. Em um rolo de 25 kg, essa faixa é a diferença entre 93 e 103 metros, ou mais de vinte peças.
Por isso o fator do cadastro serve para planejar, e a pesagem do rolo na entrada serve para saber o que realmente chegou. Fábricas que trabalham com margem apertada de material registram a metragem real por lote no recebimento e usam esse número no consumo, mantendo o fator teórico só para o cálculo de necessidade.
Quando a unidade de venda é outra
O mesmo raciocínio vale na saída. Vender caixa com 12 peças, controlar estoque em peça e faturar em caixa é perfeitamente normal, desde que a conversão esteja declarada uma vez e o sistema aplique sempre. O problema nunca é ter várias unidades: é ter várias verdades.
O que levar disso
- Uma unidade de estoque por item, com o fator de conversão no cadastro.
- Tecido de 160 g/m² e 1,60 m de largura: 0,256 kg por metro, 3,906 m por quilo.
- Gramatura varia dentro da tolerância; pese o rolo na entrada quando o material aperta.
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