MRP na prática: o que comprar, quanto e em que data
O ponto de pedido resolve bem o material de consumo regular: enquanto a média valer, a régua funciona. Ele falha justamente onde a indústria por pedido vive, que é a demanda irregular. Um contrato de 5.000 sacolas com arte específica não avisa a média de nada: ele aparece, consome um material que ficou parado três meses e some. Para esse caso existe o MRP, que é menos sofisticado do que a sigla sugere.
A conta, passo a passo
necessidade líquida = (quantidade da ordem × consumo da ficha) − saldo disponível − o que já está comprado
Uma ordem de 1.000 sacolas com entrega para 30/09:
- Consumo da ficha: 0,42 m de sarja por peça, com 5% de perda de processo declarada como acréscimo sobre o consumo líquido. São 0,441 m por peça, ou 441 m na ordem.
- Saldo disponível: 180 m no almoxarifado, já descontado o que está reservado para outras ordens.
- Em trânsito: 100 m em ordem de compra com chegada confirmada antes da data.
- Necessidade líquida: 441 − 180 − 100 = 161 m.
A parte que quase todo sistema erra: a data
Quantidade é a metade fácil. A pergunta que evita a parada é quando o material precisa estar disponível, e a resposta se monta de trás para a frente. Se a entrega é 30/09 e a produção leva três dias, o material precisa estar no almoxarifado em 25/09. Com prazo de dez dias úteis do fornecedor, a compra tem de ser disparada até 11/09. Um dia depois disso, nenhuma cobrança recupera o prazo.
Repare que o MRP não devolve só uma lista de compras: devolve uma lista de compras com data de disparo. É essa coluna que transforma o relatório em rotina de trabalho, porque ela diz o que o comprador precisa resolver hoje, e não o que ele vai precisar em algum momento.
Nível a nível
Quando a ficha técnica tem mais de um nível, a explosão desce um degrau por vez. A ordem de sacolas gera necessidade de bobina impressa; a bobina impressa, que é fabricada, gera necessidade de tecido cru e tinta. Cada nível tem o seu prazo, e os prazos se somam: é por isso que produto de três níveis exige que a compra comece muito antes do que a intuição sugere.
O que estraga o resultado
- Ficha errada. O MRP multiplica o que está escrito. Um consumo desatualizado em 5% vira 5% de falta ou de sobra, com aparência de número calculado.
- Saldo que não bate. Se o estoque do sistema diz 180 m e a prateleira tem 120, a compra sai 60 m curta. Por isso acuracidade de estoque é pré-requisito, não refinamento.
- Prazo de fornecedor otimista. Use o prazo que ele cumpre, não o que ele promete. O histórico de recebimento tem essa resposta.
- Ignorar o lote mínimo. A necessidade líquida é 161 m, mas se o fornecedor só vende rolo fechado de 100 m, a compra é 200 m. Os 39 m de sobra são estoque, e estoque tem custo.
Como começar sem virar projeto
Não é preciso rodar MRP para o catálogo inteiro no primeiro mês. Comece pelos itens que param a fábrica e têm prazo longo, que costumam ser poucos: os A da curva ABC mais qualquer material importado. Para o resto, ponto de pedido continua sendo mais barato de manter. O MRP é precisão onde a precisão paga, e a lista onde ela paga é curta.
O que levar disso
- Necessidade líquida desconta estoque e o que já foi comprado, e não só multiplica.
- A data de disparo é o que torna o cálculo útil, não a quantidade.
- Ficha correta e saldo confiável são condição; sem eles, o MRP erra com convicção.
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