Recebimento com inspeção: barrar o defeito na porta

Estoque e materiais5 min de leitura

Todo defeito de material tem duas datas possíveis de descoberta: a da entrada e a do meio da produção. A primeira custa o material. A segunda custa o material mais tudo o que já foi feito com ele, e o valor não é parecido.

A conta que justifica a inspeção

Um material de R$ 8,00 por peça, reprovado na porta, custa R$ 8,00: devolve-se ao fornecedor e a história acaba. O mesmo defeito descoberto depois da costura, com o gargalo cheio, leva junto a peça boa que aquele tempo produziria. Somando a margem de contribuição de R$ 3,17 que deixou de existir, o prejuízo vai a R$ 11,17, quase 40% a mais. E isso na hipótese otimista de o defeito ser pego internamente: se ele chega ao cliente, entram frete de retorno, retrabalho e uma conversa comercial que não tem preço de tabela. O custo do refugo cresce com a distância percorrida dentro da fábrica.

Duas etapas, não uma

O erro comum é tentar resolver tudo na chegada do caminhão, com o motorista esperando. Isso cria a pressão que faz alguém assinar sem conferir. A separação em duas etapas resolve:

  • Entrada física. Registra o que chegou, confere contra a ordem de compra, identifica o lote e coloca o material em quarentena. O caminhão vai embora. O estoque existe, mas não está disponível.
  • Inspeção. Acontece no ritmo do almoxarifado, com o critério do item. Termina com uma de três decisões: libera, rejeita ou libera com restrição, que é o caso do material fora do padrão mas aproveitável em produto de menor exigência.

Enquanto o lote não é liberado, ele não aparece como disponível para o cálculo de necessidade nem pode ser consumido por ordem de produção. Essa é a trava que faz a inspeção valer alguma coisa: sem ela, quarentena é um adesivo na prateleira que alguém vai ignorar numa sexta-feira apertada.

Inspecionar o quê, e quanto

Inspeção total em tudo não escala e nem se justifica. O critério segue a mesma lógica da curva ABC, com um ajuste: aqui pesa a criticidade, não só o valor.

  • Item crítico (define a qualidade do produto final ou tem histórico de problema): amostra por lote, com característica medida e registrada.
  • Item comum: conferência de quantidade, identificação e integridade da embalagem.
  • Item C barato: conferir contra a nota e liberar. Inspecionar parafuso custa mais que o parafuso.

A lista de itens críticos não é fixa: ela responde ao histórico. Fornecedor que reprova entra na inspeção reforçada e sai dela depois de uma sequência de lotes aprovados.

O indicador que vira argumento de negociação

índice de rejeição = lotes rejeitados ÷ lotes recebidos, por fornecedor

Esse número transforma a conversa com o fornecedor. Dizer "o material de vocês vem ruim" rende uma promessa. Dizer "nos últimos seis meses, 4 dos 22 lotes foram rejeitados por gramatura fora da faixa, e tenho o registro de cada um" rende desconto, troca de lote ou mudança de processo do outro lado. Para isso, a rejeição precisa estar registrada com fornecedor, lote, data e motivo, e não como um bilhete no quadro.

O elo com a rastreabilidade

Material que entra identificado por lote permite responder, meses depois, quais ordens de produção consumiram aquele lote específico. É o que torna um recall viável em horas em vez de semanas, e é o assunto da rastreabilidade por lote. O recebimento é onde essa corrente começa: lote não identificado na entrada não vira rastreável depois, por mais controle que exista adiante.

O que levar disso

  • Entrada física e liberação são momentos diferentes, com responsáveis diferentes.
  • Lote em quarentena não pode ser consumido, e a trava precisa ser do sistema.
  • Amostragem por criticidade, e índice de rejeição por fornecedor na mão.

Continue por aqui