Rateio de custo indireto: distribuir sem inventar número

Custo e preço6 min de leitura

Material e mão de obra direta são fáceis: dá para apontar quanto cada produto consumiu. O problema mora no resto. Energia do galpão, salário do encarregado, aluguel, manutenção, seguro. Esses gastos existem para a fábrica inteira, e alguma regra precisa dizer quanto cabe a cada produto. Essa regra não muda o lucro total da empresa em um centavo. Ela muda outra coisa, mais perigosa: quais produtos você acha que dão lucro.

A conta em uma linha

taxa de indireto = custo indireto do período ÷ base do período

Um mês com R$ 24.000 de custo indireto e 1.600 horas de máquina apontadas dá R$ 15,00 por hora de máquina. Cada produto leva a parte dele conforme o tempo que consome. As horas vêm do apontamento, não de estimativa: base chutada produz custo chutado.

Por que faturamento é a pior base

Dois produtos, mesmo mês. O A é caro e demorado; o B é barato e rápido.

ProdutoFaturamentoHorasRateio por faturamentoRateio por hora
A (2.000 peças, 0,5 h/peça)R$ 60.0001.000 hR$ 7.200R$ 15.000
B (6.000 peças, 0,1 h/peça)R$ 140.000600 hR$ 16.800R$ 9.000

O produto A ocupa 62,5% da fábrica e, pelo rateio por faturamento, paga 30% do custo indireto. São R$ 7.800 por mês que o B financia sem saber. Por peça, o A carrega R$ 3,60 quando deveria carregar R$ 7,50. Se a decisão de continuar vendendo o A sair dessa planilha, ela sai errada.

Escolher a base: uma pergunta só

Pergunte o que faz o gasto subir. Se a energia sobe quando a máquina roda, a base é hora de máquina. Se a supervisão existe por causa das pessoas, a base é hora de mão de obra. Se o aluguel se justifica pela área ocupada, área é uma base defensável para ele. Nada obriga a usar uma base só: o correto é agrupar os gastos por comportamento e ratear cada grupo pela base dele.

  • Hora de máquina: energia, depreciação, manutenção, ferramental.
  • Hora de mão de obra: supervisão, refeitório, transporte, treinamento.
  • Área ocupada: aluguel, condomínio, limpeza, segurança.

Com a fábrica cheia, a pergunta muda

Enquanto sobra capacidade, o rateio é uma convenção contábil. Quando o gargalo está cheio, a hora daquele posto vira o recurso mais escasso da empresa, e a pergunta relevante deixa de ser "quanto de indireto cabe a este produto" e passa a ser "quanto de margem este produto entrega por hora de gargalo consumida". São contas diferentes, para decisões diferentes: a primeira forma preço, a segunda decide o que produzir primeiro.

Não ratear também é uma escolha

E tem consequência: o custo do produto fica baixo, a margem aparente fica alta e a empresa descobre no fim do mês que a soma das margens não pagou a estrutura. O caminho honesto é usar margem de contribuição para decidir mix e preço no dia a dia, e manter o rateio como leitura periódica do que a estrutura exige de cada linha de produto.

O que levar disso

  • Base de rateio é escolha de causa, não de conveniência.
  • Faturamento como base subsidia o produto rápido e pune o demorado.
  • O rateio não muda o lucro total; muda a lista de produtos que parecem lucrativos.

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