Rateio de custo indireto: distribuir sem inventar número
Material e mão de obra direta são fáceis: dá para apontar quanto cada produto consumiu. O problema mora no resto. Energia do galpão, salário do encarregado, aluguel, manutenção, seguro. Esses gastos existem para a fábrica inteira, e alguma regra precisa dizer quanto cabe a cada produto. Essa regra não muda o lucro total da empresa em um centavo. Ela muda outra coisa, mais perigosa: quais produtos você acha que dão lucro.
A conta em uma linha
taxa de indireto = custo indireto do período ÷ base do período
Um mês com R$ 24.000 de custo indireto e 1.600 horas de máquina apontadas dá R$ 15,00 por hora de máquina. Cada produto leva a parte dele conforme o tempo que consome. As horas vêm do apontamento, não de estimativa: base chutada produz custo chutado.
Por que faturamento é a pior base
Dois produtos, mesmo mês. O A é caro e demorado; o B é barato e rápido.
| Produto | Faturamento | Horas | Rateio por faturamento | Rateio por hora |
|---|---|---|---|---|
| A (2.000 peças, 0,5 h/peça) | R$ 60.000 | 1.000 h | R$ 7.200 | R$ 15.000 |
| B (6.000 peças, 0,1 h/peça) | R$ 140.000 | 600 h | R$ 16.800 | R$ 9.000 |
O produto A ocupa 62,5% da fábrica e, pelo rateio por faturamento, paga 30% do custo indireto. São R$ 7.800 por mês que o B financia sem saber. Por peça, o A carrega R$ 3,60 quando deveria carregar R$ 7,50. Se a decisão de continuar vendendo o A sair dessa planilha, ela sai errada.
Escolher a base: uma pergunta só
Pergunte o que faz o gasto subir. Se a energia sobe quando a máquina roda, a base é hora de máquina. Se a supervisão existe por causa das pessoas, a base é hora de mão de obra. Se o aluguel se justifica pela área ocupada, área é uma base defensável para ele. Nada obriga a usar uma base só: o correto é agrupar os gastos por comportamento e ratear cada grupo pela base dele.
- Hora de máquina: energia, depreciação, manutenção, ferramental.
- Hora de mão de obra: supervisão, refeitório, transporte, treinamento.
- Área ocupada: aluguel, condomínio, limpeza, segurança.
Com a fábrica cheia, a pergunta muda
Enquanto sobra capacidade, o rateio é uma convenção contábil. Quando o gargalo está cheio, a hora daquele posto vira o recurso mais escasso da empresa, e a pergunta relevante deixa de ser "quanto de indireto cabe a este produto" e passa a ser "quanto de margem este produto entrega por hora de gargalo consumida". São contas diferentes, para decisões diferentes: a primeira forma preço, a segunda decide o que produzir primeiro.
Não ratear também é uma escolha
E tem consequência: o custo do produto fica baixo, a margem aparente fica alta e a empresa descobre no fim do mês que a soma das margens não pagou a estrutura. O caminho honesto é usar margem de contribuição para decidir mix e preço no dia a dia, e manter o rateio como leitura periódica do que a estrutura exige de cada linha de produto.
O que levar disso
- Base de rateio é escolha de causa, não de conveniência.
- Faturamento como base subsidia o produto rápido e pune o demorado.
- O rateio não muda o lucro total; muda a lista de produtos que parecem lucrativos.
Continue por aqui
- A matéria-prima subiu: quanto repassar para não perder margemComo repassar o aumento da matéria-prima no preço de venda?
- Dar 10% de desconto exige vender quanto a mais?Quanto preciso vender a mais para compensar um desconto?
- Custo médio móvel ou PEPS: qual número o estoque devolveQual a diferença entre custo médio móvel e PEPS na baixa de estoque?
