Hora extra, turno novo ou terceirizar: a conta antes de decidir
A carteira cresceu e o gargalo não dá conta. Três caminhos aparecem, sempre os mesmos, e a discussão costuma girar em torno de qual é o mais barato. A pergunta melhor é outra: por quanto tempo essa demanda vai existir. Porque cada opção tem um custo por peça diferente e, principalmente, uma reversibilidade diferente.
O caso, com números
Uma peça vendida com R$ 8,00 de margem de contribuição. O gargalo leva 12 minutos por peça, ou 5 peças por hora, e a hora daquele posto custa R$ 23,18 em condições normais. A fábrica precisa de mais 1.320 peças por mês.
| Opção | Custo adicional por peça | Margem que sobra |
|---|---|---|
| Hora extra a 50% (R$ 34,77/h) | R$ 6,95 | R$ 1,05 |
| Terceirizar a etapa (R$ 5,50/peça) | R$ 5,50 | R$ 2,50 |
| Turno novo, com o turno cheio (2.640 peças) | R$ 4,64 | R$ 3,36 |
| Turno novo, ocupado pela metade (1.320 peças) | R$ 9,27 | R$ 1,27 negativos |
As duas últimas linhas são a mesma decisão, com resultados opostos. Contratar três pessoas custa R$ 12.240 por mês e entrega 2.640 peças de capacidade. Se a demanda encher o turno, é de longe a opção mais barata por peça. Se encher metade, o mesmo custo fixo se espalha por metade do volume e o negócio passa a perder dinheiro em cada peça adicional.
O que realmente separa as três
- Hora extra é cara e reversível na semana seguinte. É a resposta certa para pico curto e conhecido, e a errada para virar rotina: quando a fábrica trabalha em hora extra permanente, ela está pagando o preço da opção cara com a frequência da opção barata, e ainda paga em cansaço, refugo e rotatividade.
- Terceirizar é variável de verdade: some quando o pedido some. O custo real não é só o preço da etapa, e sim o preço mais o risco de prazo e de padrão. Vale mais quando a etapa terceirizada é justamente a que ocupa o gargalo, porque aí ela devolve capacidade para o resto. Esse é o cerne da decisão de comprar ou produzir.
- Turno novo é o mais barato por peça e o mais difícil de desfazer. Contratação tem custo de entrada, curva de aprendizado e custo de saída. Só se justifica com demanda firme por vários meses, de preferência com pedido colocado, não com previsão otimista.
A opção que ninguém coloca na lista
Antes de comprar capacidade, vale checar se ela já não existe escondida. Um setup que cai de 50 para 20 minutos e acontece três vezes por dia devolve 1,5 hora diária, ou cerca de 33 horas por mês, sem folha nova e sem contrato. Na mesma direção, um OEE que sobe de 60% para 68% no posto gargalo entrega 13% mais peças com a mesma estrutura. Capacidade comprada é a última alternativa, não a primeira.
Uma regra simples de decisão
- Pico de até um mês: hora extra.
- Pico de dois a seis meses: terceirizar a etapa que ocupa o gargalo.
- Demanda firme acima de seis meses, com pedido em carteira: turno novo.
E, em qualquer um dos três, refaça a conta com a margem da peça na frente. Produzir mais só vale quando o que sobra depois do custo adicional continua positivo, o que a tabela acima mostra que nem sempre acontece.
O que levar disso
- O custo por peça só decide junto com a duração do pico.
- Turno novo é o mais barato se encher, e o pior se ficar pela metade.
- Setup e OEE costumam ter capacidade de graça antes de qualquer contratação.
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